Máquinas integradas ao corpo deverão ampliar capacidades humanas, diz “líder da era biônica”

Hugh Herr, que está à frente de pesquisas em biomecânica no MIT, fala sobre criação de “ciborgues” no espaço do Sistema CNT na HSM Expo 2019.

 

Na década de 1980, Hugh Herr perdeu as duas pernas, abaixo dos joelhos, em razão de um acidente enquanto escalava. Desde então, ele vem se dedicando a encontrar soluções para garantir e aperfeiçoar a mobilidade de quem tem restrições de movimento no corpo. Hoje, no MIT (Massachusetts Institute of Technology), ele está à frente de um trabalho revolucionário no campo da biomecatrônica, que combina tecnologias com a fisiologia humana e a eletromecânica, e já foi classificado como o Líder da Era Biônica pela revista Times. Herr busca tornar natural a integração do corpo humano com as máquinas e acredita que, no futuro, isso permitirá, além de movimentos a quem não os tem, a cura de doenças e a ampliação de capacidades físicas e emocionas das pessoas. Será a “geração ciborgue”, em que pessoas terão organismos dotados de partes humanas e cibernéticas.

Ele falou sobre o trabalho que desenvolve e os desafios que ainda quer superar em uma palestra e em uma conversa no auditório do Sistema CNT na HSM Expo 2019 — evento sobre gestão, tecnologia e inovação que se encerrou nesta quarta-feira (6), em São Paulo. “Com a biomecatrônica, poderemos hackear e mudar o corpo biológico para que ele se comunique melhor com as máquinas projetadas. Isso vai permitir novos corpos. Vamos ter as condições científicas e tecnológicas para estender as capacidades humanas”, disse.

As pesquisas e os projetos, desenvolvidos com equipes multidisciplinares no MIT, já têm gerado resultados impressionantes. No mais recente, foi desenvolvida uma prótese que, com o uso de uma técnica específica de amputação e com tecnologia, reproduz padrões de movimento de um membro natural, apenas com o comando do cérebro, por meio de eletrodos. O experimento foi feito em Jim Ewing, alpinista que também teve uma perna amputada em razão de um acidente.

“O dispositivo não tem qualquer algoritmo importante ou inteligência artificial para controlar o movimento, porque está ligado ao cérebro da pessoa. O cérebro tem informação suficiente sobre o dispositivo e sabe exatamente como controlar. A humanidade se refletiu na parte sintética”, explicou. Neste ponto, o indivíduo passar a perceber o componente mecânico como se fosse parte do próprio corpo. É um ciborgue. “Jim é um ciborgue.” (Veja o vídeo aqui.)

Herr aposta que até mesmo em casos de paralisia será possível utilizar a tecnologia para permitir que os indivíduos recuperem os movimentos. “A engenharia fará o possível para consertar o problema na medula, e depois, vamos usar um sistema nervoso digital em que computadores controlarão os movimentos.” Testes neste sentido já estão em desenvolvimento.

O próximo passo, será ampliar as capacidades humanas. “Seremos mais fortes e conseguiremos pular e correr muito além das capacidades humanas”, aposta. “Imagine como serão as competições esportivas. Eu acredito que as paralimpíadas se tornarão mais atrativas do que os jogos olímpicos convencionais, porque as possibilidades serão muitas.” Se a visão parece, por demais, ficção científica, ele exemplifica que a primeira ideia de um exoesqueleto para melhorar os movimentos do corpo humano é do século XIX. Neste século, o equipamento foi desenvolvido e testado. “O que eu vejo é poder, potencial, capacidade. Há muitos problemas e doenças no mundo em que a tecnologia ainda não está sendo usada, como a depressão.”

Um dos impactos de tantas mutações se dará, na avaliação dele, sobre a identidade. “Cada ser humano poderá ter um nível de intervenção para aumentar sua capacidade física, emocional. O indivíduo poderá criar sua própria identidade. Isso é assustador, mas também é animador: a criação da própria identidade.” A ideia parece mero produto da imaginação? Herr destaca que ele próprio é exemplo dessa possibilidade: “Minhas pernas foram amputadas e eu comecei a projetar meus membros para escalar. E dois meses depois, eu estava escalando melhor do que quando tinha membros biológicos.” Além disso, relata que usa próteses com funções e tamanhos distintos para ocasiões distintas. “Posso ter até 3 metros de altura.” (Veja o vídeo aqui.)

Ele defende o uso da tecnologia para tamanhas intervenções no corpo humano. “Com ela, eu me libertei dos meus limites.” Um dos desejos do pesquisador é que os estudos se desenvolvam para que tais tratamentos e possibilidades sejam oferecidos em escala global. “Eu percebi a responsabilidade gigantesca da tecnologia para minimizar o sofrimento. Minha meta é dar aos seres humanos o direito de terem partes de seus corpos ou próteses funcionem. Para mim, é inaceitável que uma pessoa com paralisia queira dançar, mas não possa porque não tem tecnologia. Devemos continuar investindo, até dar aos seres humanos o direito de ir e vir e de viver a vida em toda a sua integridade com os corpos que eles têm.”

 

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FONTE CNT