Com 65% das cargas nas rodovias, logística vira gargalo para o avanço do agro brasileiro

Fonte: Planeta Campo – (24/09/2026)
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A expansão da produção no Centro-Oeste esbarra em limitações de armazenagem, dependência do transporte rodoviário e alto custo do crédito
O agronegócio brasileiro ampliou a produção, avançou em tecnologia e elevou a produtividade dentro das propriedades rurais. Fora da porteira, porém, antigos gargalos de infraestrutura, transporte e armazenagem continuam limitando a eficiência da cadeia e pressionando a rentabilidade do produtor.
No segundo semestre de 2025, a capacidade de armazenamento de grãos no Brasil avançou apenas 1% em relação ao período anterior, segundo dados apresentados no programa.
A situação é ainda mais relevante no Centro-Oeste, principal região produtora de grãos do país. O aumento da produção não foi acompanhado, na mesma proporção, pela expansão da infraestrutura necessária para receber, armazenar e transportar a safra.
“A agricultura até 50 anos atrás era costeira, porque as capitais eram costeiras, o consumo era costeiro, a agricultura não havia conquistado o Centro-Oeste. Militares que tinham usar estratégica de integrar para não entregar, criaram o polo levando o produtor rural gaúcho, sulista, nordestino, mineiro para o Centro-Oeste”, disse o professor emérito da FGV Agro, Roberto Rodrigues.
Infraestrutura não acompanha crescimento
A expansão da agricultura para o interior do Brasil ocorreu sem que a infraestrutura de transporte e armazenagem avançasse no mesmo ritmo. Ferrovias, rodovias, armazéns e portos ainda formam uma rede considerada insuficiente diante do volume produzido atualmente.
Esse descompasso aumenta os custos após a colheita e reduz a capacidade de decisão do produtor sobre o momento de comercializar a produção. Sem espaço próprio para armazenar os grãos, parte dos agricultores precisa vender rapidamente a safra, mesmo quando as condições de mercado não são as mais favoráveis.
“A gente precisa trabalhar infraestrutura, segurança jurídica, procedimentos mais adequados para garantir que essa carga possa fluir dentro do Brasil e também fora”, destacou a especialista em diplomacia corporativa, Silvia Fagnani.
Custo do crédito
A deficiência logística se soma a outro obstáculo, o custo do crédito, mais de 80% do crédito utilizado pelo setor atualmente depende de capital privado, enquanto as taxas de juros elevadas dificultam investimentos de longo prazo em infraestrutura.
“Nós estamos vendo agora acontecer um movimento de destruição de economia, porque o cara que fez o investimento numa terra e está vendendo essa terra para poder pagar dívida, ele está desinvestindo. O sujeito que teve a sua máquina penhorada, ele está sofrendo desinvestimento”, explica o economista Antonio da Luz.
O impacto é direto sobre produtores que precisam financiar máquinas, armazenagem, terras e outros ativos. Em negócios com margens estreitas, o custo financeiro pode comprometer a capacidade de pagamento e reduzir os recursos disponíveis para novos investimentos.
Ferrovias e hidrovias aparecem
A dependência das rodovias é um dos principais pontos levantados no debate sobre o futuro da logística brasileira. Enquanto países concorrentes contam com redes ferroviárias e hidrovias mais estruturadas, o Brasil ainda concentra grande parte do transporte de sua produção nas estradas.
“Cerca de 65% de todo o transporte nosso é feito de modo rodoviário. Embora tenhamos no Brasil 30.000 quilômetros de ferrovias, nós só temos 12.000 quilômetros de ferrovias que são utilizadas economicamente. Então, nós temos que evoluir muito. Nós temos que evoluir na construção de ferrovias e na melhoria dos rios navegáveis”, explica o diretor-executivo da Adecon, Edeon Vaz Ferreira.
A ampliação das ferrovias e a utilização dos rios navegáveis são apontadas como alternativas para diversificar a matriz de transporte. Entre os projetos citados, está a expansão ferroviária em direção a Lucas do Rio Verde (MT), com conexão ao Arco Norte e possibilidade de escoamento pelo porto de Santarém (PA).
A estratégia também está relacionada à mudança no fluxo da produção do Centro-Oeste. Com o fortalecimento dos portos do Arco Norte, produtores da região podem ter novas opções de saída para os mercados consumidores, reduzindo a dependência dos corredores tradicionais.
Logística também passa pela tecnologia
A entrada dos produtos brasileiros nos mercados internacionais também exige maior controle sobre informações, origem e sustentabilidade.
Nesse cenário, a rastreabilidade ganha espaço. Tecnologias como blockchain podem ser utilizadas para registrar informações ao longo da cadeia produtiva e ampliar a transparência sobre a origem e os processos utilizados na produção.
A exigência por dados confiáveis acompanha a transformação do comércio internacional, no qual compradores passam a considerar não apenas volume e preço, mas também informações relacionadas à sustentabilidade e à origem dos produtos.