BR tem duvidas de como viabilizar cartao caminhoneiro

O cartão caminhoneiro a ser oferecido pela BR Distribuidora, como parte do pacote de medidas lançado ontem pelo governo para acalmar os ânimos da categoria, em meio à possibilidade de uma nova greve, é objeto hoje de muitas dúvidas dentro da companhia.

Segundo uma fonte da Petrobras, a área técnica da BR já iniciou os trabalhos para desenvolver o cartão, mas a avaliação inicial é de que a implementação do projeto não é simples e traz muitas dúvidas sobre o tamanho dos custos necessários para sua viabilização.

Ao mesmo tempo, ainda não está claro quem assumirá a cobertura de eventuais perdas da distribuidora com a iniciativa. A ideia do cartão é o caminhoneiro pré-contratar o valor do combustível assim que feche o contrato de frete. Caso o preço do combustível mude antes do fim da prestação do serviço, o caminhoneiro tem garantido o valor contratado inicialmente. Falta clareza justamente sobre quem vai arcar com essa diferença. "Não encontramos fundamentos que demonstrem atratividade para desenvolver o mecanismo", disse a fonte.

No dia 26 de março, num momento em que começaram a circular, nas redes sociais, ameaças de uma nova greve dos caminhoneiros, a Petrobras e a BR anunciaram a criação de uma espécie de cartão pré-pago que permitirá que caminhoneiros e proprietários de frotas comprem diesel a valores pré-determinados.

A BR Distribuidora já vinha estudando o assunto há alguns meses, mas acelerou os trabalhos recentemente. A Petrobras informou ao mercado que a BR esperava concluir o desenvolvimento do projeto até o fim de junho.

Existem muitas dúvidas sobre a operacionalização do mecanismo. Segundo a fonte, para a criação do cartão caminhoneiro, a BR terá que contratar um emissor de cartão por litragem informatizado, com permissão para acesso on-line de saldo.

Não está claro, por exemplo, se os caminhoneiros terão direito ou não a reembolso caso os preços caiam, ao invés de subirem, após a compra utilizando cartão. O receio dentro da área técnica é de que a distribuidora tenha de criar uma logística reversa para reembolsar os créditos não utilizados. Os trabalhos para desenvolvimento do cartão passam também por dúvidas se todos os postos da rede estarão conectados ao cartão.

Além disso, o cartão deve intensificar o uso de mecanismos de proteção (hedge). Em 2018, por exemplo, a empresa contratou US$ 75 milhões para hedges de estoques, com o objetivo de alinhar o custo do estoque com os níveis de mercado.

"Se o projeto der certo, tudo bem. Mas, se der errado e a BR tiver perdas, não temos garantia de reembolso pela Petrobras. Nem o governo nem a Petrobras assumem claramente que se trata de uma política pública", diz a fonte.

Pelo estatuto social da BR, na hipótese de uma medida que não respeite "as condições de mercado adequadas com o setor privado em que atue, a Petrobras garantirá a compensação" à BR "pela diferença entre as condições de mercado e o resultado operacional ou retorno econômico da obrigação assumida". Já a controladora, em seu estatuto próprio, deve ser reembolsada pelos cofres públicos por atividade orientada pela União. Foi assim, por exemplo, no programa de subvenção ao diesel.

 

FONTE Valor Economico