Yuval Harari fala sobre a necessidade de retreinar pessoas com o avanço da inteligência artificial

Para o filósofo e historiador, avanço da automação demandará rede de proteção às pessoas; segundo dia da HSM Expo 2019 destaca importância do autoconhecimento para melhoria da performance nas empresas.

 

Filósofo, historiador, autor de diversos best-sellers – o mais recente "21 lições para o século 21" –, Yuval Harari defendeu, nesta terça-feira (5), a criação de uma rede de segurança para proteger as pessoas dos impactos do avanço da inteligência artificial, especialmente no mercado de trabalho. Ele foi um dos grandes destaques da HSM Expo 2019, evento sobre gestão e inovação, que ocorre em São Paulo (SP). O evento conta com a participação do Sistema CNT (Confederação Nacional do Transporte, SEST SENAT e Instituto de Transporte e Logística). 

Uma das principais medidas a serem adotadas, segundo ele, será o “retreinamento” de trabalhadores. “Ninguém sabe como será o mercado de trabalho nas próximas décadas. O que se sabe é que será completamente diferente do atual. Muitos, senão a maioria dos trabalhos desaparecerão. Outros trabalhos vão emergir, mas não sabemos se o suficiente. O grande problema vai ser retreinar as pessoas para preencherem essas novas funções”, disse. 

Nos países mais pobres, as dificuldades devem ser maiores, uma vez que a baixa qualificação da mão de obra tem sido, até agora, razão para empregos mal remunerados. Esses são os postos de trabalho que primeiro devem ser substituídos por máquinas em escala massiva. “Muitas pessoas podem se tornar inúteis do ponto de vista econômico. A próxima luta vai ser por não ser irrelevante. Ser irrelevante é ainda pior do que ser explorado.” Por isso Hararai acredita na necessidade de uma rede global de segurança, que apoie os trabalhadores para essa transição. “Muitos países não conseguirão se não tiverem apoio”. 

Medidas para preparar os profissionais do futuro devem, além disso, iniciar agora. “A revolução da inteligência artificial ainda vai levar algum tempo até sair dos laboratórios para o mercado de trabalho. Temos, talvez, 10, 20, 30 anos. Mas é crucial agir agora. O importante é o que você ensina agora para que as crianças tenham habilidades relevantes em 2050.”

E quais serão as habilidades do futuro? Para Harari, as relacionadas à criatividade, habilidades manuais e sociais. 

É por essa, entre outras razões, que Yuval Harari considera a disrupção tecnológica como um dos principais desafios a serem enfrentados pela humanidade neste século, juntamente com o “colapso ecológico” e a “guerra nuclear”. 

Para ele, ainda, o avanço da inteligência artificial vai permitir que se “hackeiem humanos”. “Muitas vezes você fala sobre hackear contas bancárias, computadores. Mas pouco se fala de hackear humanos. Hackear humanos significa criar algoritmos que vão me entender melhor do que eu mesmo me entendo.  Assim, poderão prever e manipular sentimentos e decisões. Para isso, nem precisam me conhecer perfeitamente, basta me conhecer um pouco mais do que eu mesmo.”

 

Autoconhecimento para a mudança

Mas a tecnologia não é determinista, lembra o filósofo. “O que fazer para evitar piores resultados? No nível do indivíduo, o conselho mais importante, talvez, seja conheça a você mesmo.” Isso, segundo ele, funcionaria como uma espécie de “antivírus” para a mente. 

A importância do autoconhecimento foi pontuada, também, por Jill Ader, primeira líder feminina a atuar em consultoria de liderança e pesquisa de executivos de nível internacional e que, por mais de 20 anos, tem ajudado organizações a desenvolverem seus líderes. 

“Os líderes precisam se conhecer, porque eles têm que ser capazes de transformarem a si próprios para transformar as organizações”, destacou. Para ela, é necessário identificar o que trava o potencial. 

Ela exemplifica alguns padrões de comportamento que geram essa consequência. O primeiro, disse, é que “quanto mais bem-sucedido você é, mais você se cega”. Isso porque o sucesso nos torna confiantes, e é quando ficamos presos em nossos comportamentos antigos. 

O segundo é que “a nossa identidade pode ser uma armadilha”. “Quem você se tornou quando estava tão ocupado? E você gosta de quem você se tornou?”, provoca. Ela explica, também, que a nossa identidade, normalmente, está vinculada ao nosso passado e temos atalhos mentais que nos levam a nossa zona de conforto. 

E o terceiro é a perda de propósito. “As pessoas querem saber por que existem, por que fazem o que fazem. A próxima geração de líderes talentosos não ficará na sua empresa se você não criar propósito. Isso afeta sua organização e toda a sociedade.” 

Ao final, aconselhou: “Fique profundamente curioso sobre sua identidade, seu propósito e como você se manifesta. Como você pode ser uma força do bem neste mundo? Porque isso, com certeza, é liderança.”

 

FONTE CNT