Confiança baixa, expectativas altas: CNT revela cenário do transporte rodoviário de cargas

Índice CNT de Confiança do Transportador mostra índice de confiança abaixo de 50% em estados do Sul e Sudeste; empresários resistem com ajustes operacionais
A confiança dos transportadores rodoviários de cargas brasileiros segue abaixo de 50%, segundo a Confederação Nacional do Transporte. Com dados sobre os estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, o Índice CNT de Confiança do Transportador revelou ainda que mesmo nesse cenário, há perspectivas menos pessimistas para os próximos seis meses, sustentadas por ajustes operacionais e reorganização de processos.
Na opinião da diretora-executiva da CNT, Fernanda Rezende, os resultados apontam que o transportador convive com um ambiente econômico desafiador, que afeta diretamente a confiança, mas há dados positivos.
“O setor tem demonstrado capacidade de adaptação, com foco em eficiência, gestão e tecnologia. A expectativa que se mantém não reflete uma melhora do cenário macroeconômico, mas a maturidade empresarial construída ao longo dos últimos anos”, destacou.
TRC NO SUL
O estado de Santa Catarina participou pela primeira vez da pesquisa e registrou um índice geral de 38,7%, com forte impacto da avaliação negativa do ambiente econômico atual. Apesar disso, os transportadores catarinenses demonstraram menor pessimismo em relação ao futuro, destacando investimentos em tecnologia, eficiência operacional e qualificação das equipes como fatores centrais para sustentar as operações.
No entanto, a “Agenda Estratégica para Infraestrutura e Transporte” da Federação das Indústrias (FIESC) indicou que para que a infraestrutura de transportes de Santa Catarina seja capaz de atender às demandas da indústria, será preciso investir R$ 57 bilhões entre 2026 e 2029 em obras já mapeadas. O documento aponta ainda que 75% dos investimentos devem vir da iniciativa privada, com as rodovias demandando R$ 40,2 bilhões.
No Rio Grande do Sul, estado com a série mais longa da pesquisa, o índice geral de confiança chegou a 46,7%, com avanço em relação ao semestre anterior (41,4%). Segundo a CNT, a melhora foi impulsionada sobretudo pela recuperação parcial da percepção sobre as condições atuais e pelo fortalecimento das expectativas.
A desconfiança do empresariado gaúcho é alimentada pelo ceticismo político e insegurança jurídica agravados pelos potenciais efeitos de aumento da carga tributária. Eles também citam retração da demanda dos embarcadores de cargas devido ao consumo estagnado, insuficiência de infraestrutura apropriada e falta de mão de obra qualificada.
CONFIANÇA DO TRANSPORTE NO SUDESTE
Em São Paulo, o índice geral de confiança saiu de 45,9% para 45,3% — o menor nível desde o início da sondagem, em 2023. Para a CNT, isso é reflexo da deterioração da percepção sobre as condições atuais da economia e dos negócios. Ainda assim, as expectativas para os próximos seis meses indicam que os empresários seguem confiantes na capacidade de gestão de suas empresas.
O estado lidera o ranking de rodovias brasileiras, segundo a 28ª edição da Pesquisa CNT de Rodovias, com sete das melhores vias do país. De acordo com os parâmetros da pesquisa, o estado geral das rodovias do estado foi avaliado com 49,4% ótimo, 27,7% bom, 22,1% regular, 0,7% ruim e 0,1% péssimo.
Na visão do presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), Carlos Panzan, o resultado da pesquisa foi muito satisfatório e mostra que o trabalho realizado pelas autoridades estaduais demonstrou a seriedade que o transporte e a infraestrutura rodoviária têm sido levados.
Já no Rio de Janeiro, o índice geral foi de 47,2%, com queda em relação à rodada anterior. De acordo com a pesquisa, esse pessimismo é influenciado pela insegurança jurídica, avanço do roubo de cargas, alta da taxa Selic e aumento dos custos e da carga tributária.
Mesmo nesse contexto, as expectativas para os próximos meses foram de 51,4%. A CNT apontou que, os empresários mantêm confiança nas empresas, apoiada em gestão mais enxuta, investimentos em tecnologia, ganhos de eficiência e na busca por novos contratos em setores ainda aquecidos.
TRANSPORTE VIVE CICLO DE PRESSÃO E CUSTO
De acordo com a CNT, a sondagem com empresários do transporte rodoviário de cargas nos quatro estados indica que a queda da confiança está fortemente associada a fatores macroeconômicos e estruturais, como crédito caro, custos elevados, incertezas fiscais, infraestrutura deficiente e insegurança jurídica.
Esse cenário é reforçado pela opinião de executivos da área. De acordo com o diretor-presidente da Tigerlog, Marco Antonio Oliveira Neves, o TRC é um setor que vive de ciclos. “Quando você acha que está bem, algo vem e te coloca em xeque”, disse durante participação no MLOG Live, programa exclusivo da MundoLogística.
Para o executivo, apesar dos avanços, o transporte continua longe de um estágio de maturidade plena. “Vejo que ainda é um setor que precisa se preparar melhor e está nos seus primórdios. Tem muito o que fazer pela frente”, ponderou.
Ao mesmo tempo, os resultados evidenciam um setor que responde a esse cenário com maturidade empresarial, buscando ganhos de produtividade, diversificação de clientes, uso de tecnologia e gestão mais rigorosa dos custos.
Na visão do diretor de Operações Logísticas da Tora Transportes, Charles Dias da Cunha, os desafios se acumulam em diferentes frentes, mas o custo se destaca como o principal vetor no momento. “A pressão está em todos. Cada ciclo vai te demandar um desafio diferente. Mas eu destacaria, nesse momento, a questão do custo”, afirmou.
Porém, a pesquisa da CNT revelou uma onda de persistência com resultados que evidenciam um setor que responde a esse cenário com maturidade empresarial, buscando ganhos de produtividade, diversificação de clientes, uso de tecnologia e gestão mais rigorosa dos custos.
Fonte: Mundo Logística / Foto: Shutterstock